QGIS para Topografia: do levantamento ao memorial descritivo em 1 dia

Vou te contar uma coisa que eu ouvi de um técnico em agrimensura semana passada, num grupo de WhatsApp da galera. Ele falou: “Leonardo, eu pago licença anual de CAD topográfico, que custa o olho da cara, e uso 20% das funções. O resto é coisa que o QGIS faz de graça e eu nem sabia”. Pois é. Esse é o estado da arte da topografia no Brasil em 2026: muita gente pagando caro por tradição, sem saber que o QGIS virou uma ferramenta robustíssima pra topografia profissional.

Não estou dizendo pra você jogar fora o software pago amanhã. Tô dizendo que dá pra entregar levantamento, MDE, curva de nível, cálculo de área, volume e memorial descritivo dentro do QGIS, do começo ao fim, em um único dia de trabalho. E se o cliente pedir DWG, você exporta. Neste post eu destrincho o workflow completo, etapa por etapa, com a ferramenta exata e as dicas de ouro que eu ensino no Topografia com QGIS.

1. Por que QGIS pra topografia (e por que você não tinha pensad nisso)

Três motivos práticos, sem romantismo open source.

Custo zero, atualização eterna. Você não paga licença, não tem dongle, não tem reativação anual. A versão de hoje vai estar funcionando daqui a 5 anos sem você pagar nada.

Multiplataforma e compatível. Roda em Windows, Linux, Mac. Importa shapefile, DWG, DXF, KML, GeoJSON, raster, LAS/LAZ (LiDAR), CSV de coordenada. Exporta tudo isso de volta. Cliente que pede DWG recebe DWG. Cliente que pede shapefile recebe shapefile.

Geoprocessamento de gente grande. O QGIS tem mais de 1.000 algoritmos de geoprocessamento entre nativo, GDAL, GRASS, SAGA. Coisa que CAD topográfico simplesmente não tem (análise de visibilidade, hidrologia, krigagem, classificação de nuvem de pontos).

Comparado a estação total com software proprietário fechado: estação te entrega o dado, mas o tratamento sério é fora dela. Comparado a CAD pago: você ganha em geoprocessamento e deixa de pagar por funções gráficas que o QGIS já tem.

A crítica honesta: QGIS não é Civil 3D. Se você projeta rodovia, terraplenagem complexa com curva de transição, drenagem urbana com volume hidráulico, daí precisa de software específico. Pra levantamento topográfico, cadastro, parcelamento, regularização fundiária, georreferenciamento de imóvel rural, terreno urbano, o QGIS resolve.

Por que importa pro topógrafo: software pago é tradição, não obrigação. QGIS já cobre 80% do dia a dia.

2. Importando dados de estação total ou GNSS

Aqui é onde a galera trava na primeira tentativa. Cada equipamento tem o seu formato, e o QGIS precisa entender.

CSV (o caminho universal). A maioria das estações totais e receptores GNSS exporta CSV com colunas tipo “ponto, X, Y, Z, descrição”. No QGIS, vai em “Camada, Adicionar camada, Adicionar camada de texto delimitado”. Aponta o arquivo, escolhe o separador (vírgula, ponto e vírgula, tab), seleciona X e Y, escolhe o CRS no momento da importação. Pronto, seus pontos viram camada vetorial.

GSI (Leica). Formato proprietário da Leica, exportado pelos equipamentos da marca. Plugin “GSI Importer” ou conversão prévia em ferramenta gratuita tipo o GeoMax Office. Eu prefiro converter pra CSV antes, mais limpo.

RW5 (Raw Survey, Trimble/Topcon). Formato bruto que guarda visada, ré, leitura, ângulo. Pra QGIS, o caminho é processar primeiro num software de pós-processamento (TBC demo, Trimble Business Center, ou o gratuito SurvCE Survey Reduction) e exportar coordenada calculada em CSV.

RINEX (GNSS). Pra ponto de receptor GNSS pós-processado, você usa o IBGE-PPP (gratuito, online), recebe coordenada em SIRGAS 2000, e importa o CSV no QGIS.

Dica de ouro: sempre confira os dois ou três primeiros pontos visualmente. Joga em cima de uma imagem de satélite (XYZ Tiles do OpenStreetMap ou Google Satélite) e vê se cai onde tem que cair. Se o ponto cai no meio da Sibéria, é CRS errado. Se cai a 100 metros do lugar, é CRS confundido entre SIRGAS e SAD69. Se cai no lugar certo, segue.

3. Configurando o CRS correto

CRS é onde 80% dos erros topográficos nascem. Vou ser bem direto:

Brasil oficial: SIRGAS 2000. Datum geodésico oficial desde 2015. Pra coordenada geográfica (latitude e longitude), use EPSG:4674.

UTM em SIRGAS 2000. Pra topografia você quer projetada (em metros), e quase sempre é UTM. As zonas vão da 18 (Acre) até a 25 (arquipélago). Os EPSGs são 31978 (UTM zona 18S, SIRGAS 2000) até 31985 (UTM zona 25S). Se seu trabalho é em Brasília, é zona 23S, EPSG 31983. Se é em Recife, zona 25S, EPSG 31985.

Pra obra pequena, considere TM local. Em obra de menos de 5 km, o fator de escala UTM atrapalha (chega a 1/2.500 de erro de distância em borda de meridiano central). A solução é projeção TM (Transverse Mercator) local, com meridiano central na obra e fator de escala 1. O QGIS te deixa criar isso em “Configurações, CRS Personalizado”.

Cuidado com SAD69 e Córrego Alegre. Tá ainda muita planta antiga circulando nesses datums. Não pode misturar com SIRGAS sem fazer transformação. O QGIS oferece a transformação na hora de reprojetar; aceita o caminho via PROJ ntv2 (oficial IBGE) e nunca confia em transformação aproximada via 3 ou 7 parâmetros default.

Dica de ouro: ative no canto inferior direito do QGIS o display de coordenada do mouse. Passa o mouse em um ponto que você sabe a coordenada (vértice de uma esquina conhecida, ponto homologado SIRGAS) e confere se bate.

4. Gerando MDE (Modelo Digital de Elevação)

Você tem nuvem de ponto (X, Y, Z) e precisa do terreno contínuo. Três caminhos no QGIS.

Interpolação TIN. Para nuvem irregular de ponto topográfico, TIN (Triangulated Irregular Network) é o padrão. Ferramenta: “Processamento, Interpolação, Interpolação TIN”. Aponta a camada de pontos, escolhe o atributo Z, define a resolução (pixel) de saída. Em terreno acidentado, 0,5m a 1m. Em terreno plano, 1m a 2m basta.

IDW (Inverse Distance Weighting). Quando você tem ponto muito disperso e quer suavizar. Mais simples que TIN, menos fiel ao terreno duro. Útil pra MDE de bacia.

Krigagem (via SAGA). Pra trabalho científico, com análise estatística de variograma. Pra obra topográfica do dia a dia, exagero.

Dica de ouro: sempre rode antes “Processamento, GDAL, Análise, Hillshade” em cima do MDE gerado. O sombreamento revela artefato de interpolação na hora. Se aparecer triângulo estranho ou platô artificial, refaz a interpolação com mais pontos ou método diferente.

5. Criando curvas de nível

Saiu o MDE, sai a curva de nível em segundos. Ferramenta: “Raster, Extração, Contorno” (ou via GDAL “gdal_contour” no Processamento). Define o intervalo (1m, 0,5m, 5m, depende da escala) e o nome do atributo de elevação.

Saída: shapefile de linha. Pra visual ficar bonito, simbologia categorizada: linhas mestras (a cada 5 ou 10) mais grossas, linhas intermediárias finas, rótulo da cota só na linha mestra, com curvatura ao longo da linha.

Dica de ouro: depois de gerar a curva, suaviza com “Processamento, Geometria de vetor, Suavizar”. Curva de nível sem suavização sai com aspecto serrilhado feio. Suavização com tolerância 0,3 a 0,5 e 2 ou 3 iterações resolve, sem distorcer a topografia real.

6. Cálculo de área e perímetro com precisão milimétrica

Pra quem vai pro cartório, área e perímetro tem que bater até a casa decimal. No QGIS:

Camada vetorial poligonal carregada, CRS projetado UTM ou TM local (em coordenada geográfica não tem como medir em metro com precisão). Abre a tabela de atributos, “Calculadora de campo”, cria campo decimal, expressão $area pra área em metros quadrados e $perimeter pra perímetro em metros.

Importante: precisão de coordenada. O QGIS por padrão guarda a coordenada com double precision (15 dígitos significativos). Mais que suficiente. Mas se você importou de CSV com 2 casas decimais, perdeu precisão na entrada. Sempre exporte do equipamento com 3 ou 4 casas decimais em metro.

Dica de ouro: usa “Calculadora de campo” pra criar coluna $area_ha ($area / 10000) e o memorial descritivo já sai com a área em hectare formatada bonita. Pra parcelamento urbano, a coluna é em metro quadrado mesmo.

Por que importa pro cartório: área errada por 1m² não passa em conferência. QGIS calcula com precisão de fração de centímetro.

7. Cálculo de volumes (corte e aterro)

Volume é onde o pessoal de obra dá valor. Você tem dois MDEs (terreno natural e terreno projetado) e quer saber quanto cortar e quanto aterrar.

Caminho 1: Raster Calculator simples. “Raster, Calculadora Raster”, expressão MDE_projeto - MDE_natural. Resultado: raster de diferença. Onde positivo, é aterro; onde negativo, é corte. Multiplica pelo tamanho do pixel em metros quadrados, soma tudo, e tem o volume líquido.

Caminho 2: SAGA “Grid Volume”. Mais completo. “Processamento, SAGA, Grid Analysis, Grid Volume” calcula direto volume positivo, volume negativo, volume líquido. Saída em texto com os números prontos.

Caminho 3: para terreno natural sem MDE projetado, plataforma horizontal. Usa “Plugin SAGA Grid Volume” definindo plano de referência na cota desejada. Tipico pra cálculo de volume de bota-fora ou estoque de minério a céu aberto.

Dica de ouro: sempre rode o cálculo em duas resoluções diferentes (digamos 0,5m e 1m) e compara o resultado. Se o volume bate em 1% ou 2%, sua precisão tá boa. Se varia muito, sua nuvem de ponto está esparsa demais pra essa resolução.

8. Memorial descritivo: as coordenadas no formato exigido pelo cartório

Cartório quer coordenada vértice a vértice, em formato específico, em SIRGAS 2000 UTM, com azimute e distância entre vértices, e descrição textual confrontante por confrontante.

No QGIS:

  1. Camada do polígono carregada em SIRGAS 2000 UTM correto.
  2. “Vetor, Ferramentas de geometria, Extrair vértices”. Sai um shapefile de ponto, um por vértice, com ordem.
  3. Plugin “MemorialDescritivo” (gratuito, no repositório oficial QGIS) ou plugin “Memorial Brasil” gera o texto formatado direto pra cartório.
  4. Conferência: usa “Calculadora de campo” pra criar colunas E (este, X) e N (norte, Y), aí exporta CSV. O texto do memorial sai com “do vértice P-01 de coordenadas E=XX.XXX,XXX m e N=YY.YYY,YYY m…”.

Dica de ouro: alguns cartórios pedem azimute em graus, minutos, segundos; outros em grado decimal. O plugin “Memorial Brasil” deixa configurar. Sempre pergunte antes de entregar.

9. Layout do mapa topográfico

A planta tem que ter escala, norte, legenda, carimbo, assinatura do responsável técnico (com ART, CFT ou registro), grade de coordenada UTM, e cota em metros.

No QGIS, “Projeto, Novo Layout de Impressão”. O layout do QGIS é poderoso. Tem:

  • Item mapa com escala fixa (1:500, 1:1000, 1:2000) e rotação se a planta exige norte rotacionado.
  • Grade UTM com rótulo nas bordas, espaçamento configurável.
  • Barra de escala gráfica e numérica.
  • Norte (símbolo SVG embutido).
  • Legenda automática com simbologia das camadas.
  • Tabela de atributos (lista de vértice e coordenada).
  • Carimbo via item “Imagem” ou via tabela formatada.
  • Exportação em PDF, SVG, PNG, GeoPDF.

Dica de ouro: salve o layout como template. Pra próxima planta, abre, troca a camada do mapa, atualiza o carimbo, exporta. Cinco minutos em vez de uma hora.

10. Exportando pro AutoCAD se o cliente pedir DWG

Inevitável. Engenheiro civil ainda manda DWG. Caminho no QGIS:

“Projeto, Importar/Exportar, Exportar projeto pra DXF”. Funciona. Mas o resultado é um DXF (que o AutoCAD abre).

Pra DWG nativo, dois caminhos:

  1. Plugin “AnotherDXF2Shape” e ferramentas externas pra converter DXF para DWG (ODA File Converter da Open Design Alliance, gratuito).
  2. Exportar como DXF e abrir no AutoCAD ou DraftSight, salvar como DWG.

Dica de ouro: controle a camada (layer) na exportação. No QGIS, configure cada camada com um nome de “layer DXF” coerente (TERRENO, CURVA_NIVEL, EDIFICACAO, COTA), pra que ao abrir no CAD, a estrutura já esteja organizada. Isso vale ouro pro engenheiro do outro lado.

Como dar o próximo passo

Recapitulando o roteiro: importou dado bruto, configurou CRS, gerou MDE, gerou curva de nível, calculou área, calculou volume, gerou memorial descritivo, montou layout, exportou pra DWG se foi pedido. Tudo no QGIS, em um dia de trabalho, com custo de licença zero.

Se você quer aprender esse workflow inteiro com 26 aulas em 3 horas, dado real de levantamento, gabarito de memorial, template de layout e plugin específico pra topografia, dá uma olhada no Topografia com QGIS.

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Perguntas frequentes

QGIS substitui o AutoCAD Civil 3D pra topografia?

Pra levantamento topográfico, cadastro, parcelamento, regularização fundiária, georreferenciamento e planta topográfica, substitui sim. Pra projeto rodoviário complexo, drenagem urbana e terraplenagem com greide, o Civil 3D continua mais especializado. Muita gente usa os dois, cada um na função certa.

Como garantir que o memorial descritivo gerado no QGIS é aceito em cartório?

Três pontos. Primeiro, CRS oficial (SIRGAS 2000 com UTM da zona correta). Segundo, plugin que formata no padrão exigido pela serventia (pergunta antes ao cartório qual é). Terceiro, ART ou TRT do responsável técnico anexada. O QGIS gera o texto, você assina e protocola.

Posso usar QGIS pra georreferenciamento de imóvel rural exigido pelo Sigef/Incra?

Pode. O QGIS exporta no formato compatível, e o Sigef aceita. Você só precisa atender a precisão posicional exigida (norma técnica do Incra), e isso depende do equipamento de campo, não do software. Se a coleta foi com GNSS RTK ou pós-processada, o QGIS dá conta de gerar e validar a planilha de vértice.

Qual a precisão real do QGIS pra cálculo de área e volume?

Pra área e perímetro, depende só da precisão do dado de entrada. O QGIS usa double precision, o erro de cálculo é desprezível (na casa do milionésimo de metro). Pra volume, a precisão depende do MDE, que depende da densidade de ponto. Em terreno bem amostrado, com nuvem de ponto a cada 1 ou 2 metros, o erro fica em 1% a 3%, padrão da geomática.

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Leonardo Marques

Leonardo Marques é engenheiro ambiental e doutor, com atuação focada em Sistemas de Informação Geográfica (SIG/GIS), geoprocessamento, cartografia digital e sensoriamento remoto. É fundador e principal instrutor do Clube do GIS — a maior plataforma de ensino de geotecnologias do Brasil, com mais de 10.000 alunos formados em cursos de QGIS, ArcGIS, Python GIS, PostGIS, drones e análise espacial. Atua também como consultor e instrutor corporativo para empresas dos setores de agronegócio, meio ambiente, engenharia e planejamento urbano. Áreas de especialidade: QGIS avançado, análise multicritério, mapeamento aéreo com drones, Python para geoprocessamento e banco de dados espacial PostGIS.
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